Foto da cena de Stefan e Helena de Diários de um Vampiro como referência à nostalgia que volta a fazer sucesso em 2026Personagens Stefan e Helena de 'Diários de um Vampiro | reprodução/Instagram/@thevampirediaries'

Nos últimos anos, a nostalgia se tornou uma das forças mais marcantes da cultura pop. Filmes, músicas e séries que marcaram décadas passadas voltaram ao centro das conversas nas redes sociais e nas plataformas de streaming.

A tendência não é apenas impressão do público. Estudos recentes mostram que o interesse por conteúdos nostálgicos está em alta, especialmente entre os mais jovens. Um levantamento da empresa de pesquisa GWI indica que 50% da Geração Z afirma sentir nostalgia por mídias do passado, número maior do que em outras gerações, o que tem impulsionado o retorno de séries e produções clássicas ao debate cultural.

Além disso, dados da Nielsen apontam que séries baseadas em nostalgia geram cerca de 22% mais tempo médio de exibição em plataformas de streaming quando comparadas a produções sem conexão com obras anteriores, reforçando por que serviços digitais apostam cada vez mais em conteúdos clássicos ou reboots.

Nas redes sociais, o fenômeno também aparece de forma clara. Em 2026, a tendência “2026 is the new 2016” viralizou ao incentivar usuários a revisitar memes, músicas e referências culturais de dez anos atrás, reforçando o desejo coletivo de reviver momentos marcantes da internet e da cultura pop.

Com esse movimento, produções que marcaram gerações voltam a ganhar espaço nas listas de mais assistidas. Séries como The Vampire Diaries, ou longa-metragens, como famosa saga “Crepúsculo” e “High School Musical ” por exemplo, voltaram a viralizar anos depois de seu encerramento, conquistando tanto fãs antigos quanto novos espectadores.

Mas por que isso acontece? Segundo a entrevistada nesse mês do Portal Maraq, a Neuropsicóloga Juliana Figueiredo responde algumas perguntas que envolvem assuntos sobre a memória, emoções e a forma como o cérebro reage a conteúdos familiares.

Nostalgia e memória emocional

Revisitar séries que marcaram uma fase da vida pode despertar sensações muito específicas no cérebro. De acordo com a neuropsicóloga Juliana, isso acontece porque histórias associadas a momentos importantes ativam áreas cerebrais ligadas à memória e à emoção.

Quando revisitamos histórias que fizeram parte de momentos importantes da nossa vida, como a adolescência ou a juventude, ativamos regiões ligadas à memória e à emoção, como o hipocampo. Além disso, o sistema de recompensa de dopamina é acionado, gerando sensações de prazer e conforto”, explica.

Esse processo faz com que assistir novamente a uma série seja semelhante a revisitar lembranças afetivas. “É como se estivéssemos revivendo momentos especiais da nossa história pessoal em mundos fantásticos”, acrescenta.


Foto da neuropsicóloga Juliana Figueiredo que explica sobre a nostalgia que impulsionam o retorno de sucessos de filmes e séries
Neuropsicóloga Juliana Figueiredo responde perguntas sobre produções antigas que marcaram gerações e voltam a ganhar espaço nas listas de mais assistidas | Foto: arquivo pessoal

Séries como “porto seguro” emocional

Assistir novamente a um conteúdo já conhecido também pode trazer sensação de segurança emocional. Segundo a especialista, o cérebro tende a reagir de forma mais tranquila diante de situações previsíveis.

O cérebro gosta do que já conhece. Quando algo é previsível, ele percebe como menos ameaçador, liberando neurotransmissores que reduzem a ansiedade”, afirma.

Por isso, em períodos mais turbulentos da vida, muitas pessoas acabam escolhendo rever séries favoritas. “Essas histórias podem funcionar como um verdadeiro ‘porto seguro’ emocional”, explica.

Essa preferência por conteúdos conhecidos pode se intensificar em momentos de estresse ou incerteza. Nesses casos, o cérebro ativa regiões responsáveis por identificar ameaças, como a amígdala. Consumir filmes, músicas ou séries familiares ajuda a reduzir esse estado de alerta.

“Quando consumimos algo que já conhecemos, o cérebro interpreta como algo seguro, o que diminui a sensação de risco”, destaca a neuropsicóloga.

Séries antigas também conquistam novas gerações

Outro fenômeno curioso é quando produções antigas passam a atrair espectadores que nem sequer assistiram à série em sua época original. Segundo Figueiredo, isso acontece porque muitas dessas histórias abordam temas universais que continuam relevantes.

“Personagens marcantes, conflitos universais e mundos bem construídos atravessam gerações. Amor, amizade, superação e mistério ativam áreas do cérebro ligadas à empatia e à emoção”, explica. Além disso, existe o que ela chama de “nostalgia emprestada”. “Mesmo sem ter vivido a época original da série, a nova geração pode se conectar com elementos que marcaram outras pessoas. O cérebro associa essas referências a experiências positivas ou divertidas, criando apego emocional”, afirma.


A saga “Crepúsculo” terá exibição especial nos cinemas brasileiros em março de 2026 em comemoração aos 15 da estreia da franquia | Vídeo: reprodução/Youtube/ParisFilmes

O papel das redes sociais

As redes sociais também têm um papel importante nesse fenômeno. Plataformas como TikTok e Instagram frequentemente fazem cenas antigas voltarem a circular na internet.

Quando uma cena, meme ou trend viraliza nas redes sociais, mesmo quem nunca pensou em reassistir a série é exposto repetidamente ao conteúdo”, explica a neuro.

Esse processo está ligado ao chamado efeito da mera exposição, segundo o qual quanto mais uma pessoa entra em contato com algo, maior tende a ser o interesse por aquilo.

Efeito das maratonas de séries e conexões

O hábito de maratonar episódios também contribui para que séries antigas ganhem nova popularidade.

Maratonar significa exposição contínua e repetida. Quanto mais somos expostos a algo, mais o cérebro tende a gostar e se apegar”, afirma a especialista.

Esse processo faz com que produções antigas possam parecer tão envolventes quanto conteúdos inéditos.

Outro fator que explica o sucesso duradouro das séries é a forte identificação do público com os personagens. Segundo a dra Juliana, o cérebro humano é naturalmente programado para compreender emoções e intenções de outras pessoas.

Quando assistimos um personagem passar por desafios, alegrias ou perdas, nosso cérebro simula essas experiências, gerando empatia como se estivéssemos vivendo aquilo”, explica. “Podemos nos identificar com traços de personalidade, dilemas ou decisões. Essa identificação ativa reflexões sobre nossos próprios valores e experiências”, afirma a neuropsicóloga.

Por isso, personagens muitas vezes funcionam como espelhos emocionais.


Momentos de Gabriela e Troy que mais foram comentados na época de lançamento (2006) | Vídeo: reprodução/Youtube/High School Musical

Quando a nostalgia se torna coletiva

Quando muitas pessoas voltam a comentar sobre uma série ou filmes ao mesmo tempo, surge um fenômeno coletivo.

A nostalgia normalmente é uma experiência individual, ligada a memórias afetivas. Mas quando muitas pessoas compartilham essas lembranças ao mesmo tempo, a experiência se torna coletiva”, explica.

Esse movimento pode reforçar ainda mais o interesse do público em revisitar determinadas histórias.

O cérebro interpreta essa ‘onda de lembrança’ como algo positivo e aumenta a vontade de rever a série ou filme”, conclui.

Diante desse cenário, o retorno de produções antigas ao centro das conversas culturais não parece ser apenas uma coincidência. Entre memória afetiva, identificação com personagens e o poder das redes sociais de reacender tendências, o fenômeno mostra como histórias marcantes continuam encontrando novas formas de dialogar com diferentes gerações. Em um cenário dominado pelo streaming e pela cultura digital, revisitar o passado pode ser também uma maneira de reinterpretar emoções, valores e experiências que permanecem atuais para o público.