O reinado absoluto das vilãs mexicanas e dos dramalhões latinos no Brasil parece diminuir cada vez mais, dando lugar a uma hegemonia vinda do outro lado do mundo. Em março de 2026, o cenário do entretenimento brasileiro consolida uma mudança histórica: o país se tornou o maior consumidor de conteúdo pop sul-coreano da América Latina, movimentando cifras que ultrapassam os US$ 33 bilhões anuais. O fenômeno, que antes ocupava nichos na internet, agora dita o ritmo da TV aberta e das grandes plataformas de streaming.
Dorama: o Xeque-Mate na TV Aberta
A prova mais clara dessa transição ocorreu em junho de 2025, quando o SBT, tradicional casa das produções mexicanas, testou a exibição do dorama Meu Amor das Estrelas. O resultado surpreendeu o mercado. Segundo dados da Kantar Ibope, a produção coreana registrou uma média de 3,2 pontos, superando a estreia da novela mexicana Eternamente Apaixonados, que amargou 2,5 pontos no mesmo período.
“O alto comando do SBT acompanha atentamente a reação do telespectador… a aposta na dramaturgia coreana acontece a partir dos pedidos do público“, afirmou o jornalista especializado José Armando Vannucci em sua coluna no Canal do Vannucci em junho de 2025. O fracasso da trama mexicana foi tão acentuado que a emissora a retirou do ar apenas cinco dias após a estreia, um movimento raríssimo para os padrões do canal de Silvio Santos. A novela agora, está disponível naplataforma de streaming da emissora.
Diplomacia Cultural e Soft Power Bilionário
Diferente das novelas mexicanas, que dependem do sucesso comercial de grandes redes como a Televisa, o fenômeno coreano (Hallyu) é uma política de Estado. Em 2024, o governo sul-coreano anunciou a meta de se tornar uma potência global de conteúdo com US$ 25 bilhões em exportações até 2027. No Brasil, essa estratégia se materializou em fevereiro de 2026, com a assinatura de um Acordo sobre Comércio e Integração Produtiva entre os dois países.
Este acordo não apenas facilita a chegada de séries, mas impulsiona todo o ecossistema. “O Brasil é hoje o maior consumidor de conteúdo sobre a cultura pop sul-coreana na América Latina… o interesse movimentou US$ 31,5 bilhões e há projeção de crescimento de 6% ao ano até 2027“, aponta relatório do Centro Cultural Coreano no Brasil publicado originalmente em setembro de 2025. Esse montante engloba desde assinaturas de streaming até o mercado de K-Beauty (beleza) e K-Food (gastronomia).

O Melodrama Universal em 16 Episódios
Especialistas apontam que a “receita do bolo” coreana é uma evolução do que o México oferecia. Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP e autor de A Hollywood Brasileira, comentou em artigo para o Diário de Cuiabá em fevereiro de 2025: “Novelas mexicanas e turcas comprovam que o melodrama é universal. Fonte do sucesso dos atuais hits coreanos, produções mirabolantes e catárticas correspondem aos anseios do público“.
A diferença crucial é a agilidade. Enquanto a novela mexicana se estende por meses com centenas de capítulos, os K-dramas entregam narrativas fechadas de 12 a 16 episódios, perfeitas para o consumo acelerado da Geração Z e dos Millennials. Além disso, a qualidade técnica cinematográfica das séries da Coreia elevou o padrão de exigência dos espectadores, fazendo com que o cenário “datado” e as tramas arrastadas das produções latinas perdessem o brilho frente ao polimento visual de sucessos como Queen of Tears (2025) e The Remarried Empress (2026).
Com o Brasil batendo recordes de turismo para Seul, foram mais de 41 mil brasileiros em 2025, segundo a Folha de S. Paulo, e o setor de cosméticos coreanos crescendo 16% ao ano, fica claro que a febre não é passageira. A Coreia do Sul não apenas substituiu o melodrama mexicano; ela criou um estilo de vida que o brasileiro, ávido por novas formas de conexão emocional, abraçou de braços abertos.
