Cena do filme 'Natal Amargo' de Pedro Almodóvar | reprodução/Youtube/Warner Bros. PicturesCena do filme 'Natal Amargo' de Pedro Almodóvar | reprodução/Youtube/Warner Bros. Pictures

Pedro Almodóvar sempre encontrou no caos emocional uma de suas maiores forças narrativas. Em Natal Amargo, seu mais recente longa-metragem, o consagrado diretor espanhol retorna justamente para esse espaço onde amor, medo e solidão caminham juntos. No entanto, desta vez, o cineasta decide moldar esse melodrama através de um complexo quebra-cabeça psicológico e metalinguístico, o cinema falando sobre o próprio cinema. A estreia do filme de Pedro Almodóvar nos cinemas brasileiros está marcada para o dia 28 de maio

O duplo bloqueio criativo e o vaivém temporal

O protagonista da história é Raúl (interpretado com entrega por Leonardo Sbaraglia), um roteirista de cinema imerso em seus próprios dramas reais e crises artísticas. A narrativa se desenvolve a partir de uma estrutura fragmentada e cheia de idas e vindas no tempo. Em diversas sequências, um fato acontece na tela e, logo em seguida, a projeção retorna para a lembrança ou para a releitura daquele exato acontecimento.

Essa dinâmica simula o exaustivo processo mental da escrita, mas ganha sua verdadeira força no que podemos chamar de duplo bloqueio criativo: Raúl não apenas está travado na “vida real” do filme, mas projeta suas angústias na ficção, fazendo com que o personagem que ele está criando para o seu roteiro sofra com os mesmíssimos bloqueios e dores. É um espelho dentro de outro espelho. Como criador e criatura não conseguem avançar, as histórias se misturam em uma engrenagem assumidamente confusa, especialmente no segundo ato. Veja o trailer a seguir:


Reprodução/Youtube/Warner Bros. Pictures


Saúde mental, ansiedade e o drama nas canções

Essa fragmentação ganha contornos mais profundos ao abordar diretamente a saúde mental. O longa é extremamente sugestivo ao uso de medicamentos antidepressivos e ao retrato da ansiedade emocional. Os personagens estão constantemente tentando manter algo vivo enquanto percebem que perderam o controle de seus sentimentos. Isso se manifesta fortemente na melancolia de Raúl e nas dores de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), marcada por uma constante sensação de perda iminente.

Como é de praxe no cinema de Almodóvar, a arte surge como o único canal capaz de traduzir o que se passa no mais profundo da alma de figuras tão atribuladas. O filme brilha quando as canções tomam o protagonismo e expõem feridas e sentimentos que as páginas em branco do roteiro de Raúl ou os diálogos convencionais simplesmente não dão conta de explicar e conseguem mexer também com o público.

Um desfecho que divide opiniões

Natal Amargo é, sem dúvidas, um legítimo filme cult, feito para o público que aprecia tramas sensoriais e menos mastigadas. O elenco principal entrega interpretações seguras e cheias de humanidade, conseguindo sustentar a instabilidade psicológica de seus papéis.

Contudo, a reta final da produção tende a dividir o público do Portal Maraq. Enquanto parte da crítica enxerga no desfecho uma habilidade rara de Almodóvar em reorganizar os sentimentos dos personagens, sob a ótica do espectador que busca resoluções claras, o filme peca pela falta de um fechamento direito. Ao escolher manter o final aberto, o diretor faz com que a obra termine espelhando o próprio bloqueio de seu protagonista. O desfecho de cada arco permanece nebuloso, deixando no ar a sensação de que algumas histórias, assim como as dores da mente, simplesmente não têm uma resposta exata.

Nota: 3.5 / 5.0

By Raquel Cunha

Jornalista por amor e formação, Raquel Cunha comanda o Portal Maraq unindo sua paixão pela cultura à expertise em gestão. Aborda o entretenimento e o cenário artístico de forma leve, transformando a notícia em uma conexão direta entre o público e a arte.