O Portal Maraq teve acesso a pré-estreia do longo dirigido por O Fim da Rua tenta construir uma abordagem diferente para histórias envolvendo dinossauros. O filme mistura sobrevivência, ação, terror e drama familiar, mas encontra dificuldades para equilibrar esses elementos. O principal conflito da produção parece se dividir entre a fuga e sobrevivência diante dos dinossauros e a valorização de um matrimônio, questão que ganha força apenas em determinado momento da história.
Essa divisão acaba afetando a jornada dos personagens. O roteiro não consegue definir com clareza qual história pretende contar e, consequentemente, cria uma experiência marcada por conflitos de gênero e narrativa. Ainda assim, o longa entrega aquilo que promete em termos de entretenimento e ação descompromissada.
Trailer Oficial dublado | reprodução/ Youtube/Warner Bros Pictures Brasil
O Fim da Rua aposta em ação, terror e drama familiar
A jornada apresentada pelo filme se torna confusa justamente porque o roteiro não ajuda a estabelecer uma linha narrativa mais clara. A produção parece querer abordar conflitos familiares enquanto utiliza os dinossauros como parte do cenário e da ameaça central.
O problema é que a própria causa da catástrofe, uma fenda temporal, parece ser deixada em segundo plano durante boa parte da história. Quando finalmente precisa ser explicada, a solução surge de maneira rápida, por meio de uma frase que tenta justificar os acontecimentos, sem convencer.
Para quem procura apenas uma narrativa diferente dentro do chamado “dinoverso”, O Fim da Rua pode funcionar como entretenimento. No entanto, para um público mais exigente, a principal questão permanece: afinal, qual é a proposta central que o filme quer desenvolver?
A produção flerta com diferentes gêneros, principalmente ação, aventura e terror, mas não consegue uni-los de maneira consistente. Essa falta de equilíbrio é um dos principais problemas da obra e interfere diretamente na experiência narrativa.
Anne Hathaway e Ewan McGregor enfrentam desafios diferentes no elenco
Anne Hathaway possui em seu currículo produções como Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, em que interpretou Selina Kyle (Mulher-Gato), e Oito Mulheres e um Segredo, além de uma carreira fortemente associada a dramas e romances. Em O Fim da Rua, no entanto, o typecasting relacionado a esses gêneros parece pesar sobre sua atuação.

Cenas de “O Fim da Rua” | Foto: Divulgação/ Warner Bros Pictures
A personagem exige uma figura tomada pelo pânico em meio ao caos, mas também precisa lidar com um conflito romântico envolvendo o marido. Na avaliação do crítico Marcelo Cunha, que analisou o filme para o Portal Maraq, Anne Hathaway não encontra um equilíbrio convincente entre essas duas exigências.
A comparação com Emily Blunt em O Dia D (2026) evidencia essa percepção, já que Blunt contracenou com Anne em O Diabo Veste Prada 1 e 2, e também encenou em um filme totalmente diferente do seu typecast. Blunt, conhecida por seus personagens dramáticos, consegue entrar no universo da ação e suspense com uma segurança que, segundo a avaliação já publicada por esta editoria, apresenta um desempenho digno de futuras premiações.
Já Ewan McGregor, eternizado por muitos espectadores como Obi-Wan Kenobi, entrega aquilo que sua experiência permite dentro da proposta do longa. O ator busca conciliar ação, terror e romance em uma produção oficialmente classificada como aventura.
A química entre os personagens, por outro lado, funciona. O roteiro procura encaixá-los dramaticamente e consegue construir uma relação que, mesmo diante das dificuldades da narrativa, apresenta bons momentos de interação.
O design de som e a fotografia são os destaques técnicos
Um dos pontos mais eficientes de O Fim da Rua está na utilização da trilha sonora. Os prelúdios funcionam especialmente bem na construção da tensão, utilizando acordes longos e tensos para antecipar ao espectador que algo ruim está prestes a acontecer.
Não foi identificada por esta editoria uma utilização marcante de recursos como o silêncio negativo ou o fake-out dentro do design de som. Ainda assim, a construção sonora contribui para os momentos de suspense.
Michael Giacchino, responsável pela trilha sonora do filme, possui uma carreira consolidada no cinema e na televisão. O compositor venceu o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 2010 por Up – Altas Aventuras e participou de produções como Lobisomem na Noite (2022), Thor: Amor e Trovão (2022), The Batman (2022) e Jurassic World: Domínio (2022).
A fotografia, assinada por Michael “Mike” Gioulakis, também busca trabalhar a tensão por meio de movimentos claustrofóbicos e de uma sensação de paranoia espacial. Alguns enquadramentos, porém, causam estranhamento.
Um dos recursos utilizados é a composição em side face, com o personagem de perfil e o background em foco. A escolha permite que o ambiente participe ativamente da cena, aproximando a psicologia do personagem do espaço ao seu redor.
Ao contrário do retrato tradicional, que costuma isolar o personagem com o fundo desfocado, esse tipo de composição obriga o espectador a observar personagem e cenário como parte de uma mesma narrativa. O recurso remete ao deep focus, estilo visual que ganhou notoriedade em clássicos como Cidadão Kane (1941).
Na opinião desta editoria, a utilização desse recurso em O Fim da Rua não funciona plenamente. A composição provoca uma sensação de incômodo durante alguns momentos da projeção.
Ainda assim, a direção consegue criar tensão em cenas-chave, especialmente quando utiliza os elementos técnicos para trabalhar o suspense e a ameaça representada pelas criaturas.
O filme coloca os dinossauros em segundo plano
A grande proposta de O Fim da Rua parece estar na tentativa de discutir conflitos familiares em meio a uma situação extrema. Os dinossauros, que poderiam representar o centro da narrativa, acabam funcionando muitas vezes como um background para os dramas humanos.
A fenda temporal, responsável pela catástrofe, também parece ser deixada de lado durante a construção da história. Quando a narrativa precisa finalmente explicar sua origem, a solução é apresentada de maneira rápida e pouco convincente.

Cenas de “O Fim da Rua” | Foto: Divulgação/ Warner Bros Pictures
Para os fãs do “dinoverso”, a proposta pode funcionar justamente por apresentar uma abordagem diferente das produções tradicionais envolvendo criaturas pré-históricas. Já para quem procura uma narrativa mais consistente, o conflito entre os gêneros se torna um obstáculo.
A maior força do filme está em apresentar uma abordagem mais ácida sobre a relação entre os seres humanos e os dinossauros, flertando inclusive com elementos do terror. O problema é que a produção não consegue unir plenamente as diferentes propostas que apresenta.
Uma produção com gêneros e referências que nem sempre se encontram
Na avaliação desta editoria, a própria combinação de diferentes linhas de produção contribui para a sensação de conflito. Nomes como J.J. Abrams e Jon Cohen representam experiências distintas dentro do cinema, enquanto outros produtores também trazem referências variadas para o projeto.
David Robert Mitchell, responsável pela direção, produção e roteiro, permanece como o principal nome por trás da construção do filme. Ainda assim, a sensação é de que O Fim da Rua possui uma proposta que funcionaria melhor no streaming do que necessariamente em uma experiência pensada para as telonas.
Chris Bender, produtor executivo com experiência em diferentes gêneros, também faz parte da equipe. O resultado final, porém, evidencia uma produção marcada por referências e propostas que nem sempre encontram uma unidade.
As referências a clássicos como Jurassic Park, Tubarão e Os Goonies também aparecem ao longo da experiência. Na avaliação desta editoria, entretanto, essas referências acabam se tornando dependentes dentro de uma narrativa que enfrenta problemas na relação entre causa e efeito.
VFX é um dos grandes acertos de O Fim da Rua
Se o roteiro apresenta dificuldades para definir sua proposta, os efeitos visuais representam um dos principais acertos do filme.
O VFX foi desenvolvido pela Industrial Light & Magic (ILM), com supervisão de efeitos visuais de Jay Cooper. O trabalho envolve a criação de criaturas pré-históricas e elementos visuais complexos que interagem com o cenário ambientado nos anos 1980.
Nesse aspecto, O Fim da Rua entrega uma experiência visual eficiente. As criaturas e os efeitos funcionam dentro da proposta da produção e ajudam a construir a sensação de ameaça necessária para os momentos de ação e terror.
É justamente nesse contraste que está uma das grandes questões do filme: tecnicamente, a produção apresenta elementos capazes de sustentar uma experiência mais consistente, mas o roteiro não consegue organizar com a mesma eficiência as diferentes histórias e gêneros que pretende desenvolver.
Vale a pena assistir ‘O Fim da Rua’?
Para quem gosta de filmes com dinossauros e busca uma abordagem diferente dentro do “dinoverso”, O Fim da Rua pode ser uma experiência interessante. O longa entrega ação, entretenimento e bons efeitos visuais.
No entanto, o espectador que procura uma narrativa mais definida poderá questionar a proposta central da produção. O filme se divide entre sobrevivência, terror, aventura e drama familiar sem conseguir transformar esses elementos em uma única identidade.
A grande força de O Fim da Rua está em sua tentativa de apresentar os dinossauros sob uma perspectiva mais ácida e próxima do terror, além do trabalho de efeitos visuais. Sua maior fraqueza está no roteiro, que se perde na construção de causa e efeito e não consegue equilibrar completamente os gêneros que propõe.
Nota: 2/5.
A nota se justifica principalmente pela dificuldade do roteiro em desenvolver a fenda temporal e suas consequências, além da dependência de referências a produções como Jurassic Park, Tubarão e Os Goonies. Apesar do VFX eficiente e de momentos de entretenimento, O Fim da Rua termina como uma experiência marcada mais pela confusão de suas propostas do que pela força de sua narrativa.

