Foto de Lula Fidalgo abraçando o violãoO músico, compositor e arranjador Lula Fidalgo | Divulgação/Tainan Franco

O músico, compositor e arranjador Lula Fidalgo apresenta neste sábado, 18, em Jundiaí, São Paulo, o concerto de lançamento do projeto “Rio Abaixo, Mar Adentro”, releitura instrumental do álbum “Canções Praieiras” (1954), de Dorival Caymmi. A proposta parte da afinação “Rio Abaixo”, que imprime uma nova sonoridade à viola caipira e conduz a obra por outra perspectiva musical.

Viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com apoio da Prefeitura de Jundiaí, o projeto propõe uma releitura que não apenas revisita, mas reinterpreta o clássico. Disponível em plataformas digitais, a obra convida o público a perceber a música brasileira por outras camadas.

O contraste que recria Caymmi

Se, na obra original de Caymmi, o mar aparece como espaço de leveza, rotina e contemplação, na leitura de Lula Fidalgo ele ganha outra densidade. Isso acontece porque o ponto de partida não é o litoral, mas o interior, mais precisamente, a sonoridade da viola caipira afinada em “Rio Abaixo”.

Conhecida por produzir um timbre mais grave e melancólico, essa afinação carrega também uma dimensão simbólica. Associada a narrativas populares, ela evoca a figura de um violeiro misterioso que teria encantado uma comunidade com uma música desconhecida, em uma história que atravessa o imaginário folclórico brasileiro.

É a partir desse elemento que o projeto constrói seu principal eixo: o contraste. De um lado, a leveza solar das canções praieiras; do outro, a profundidade quase sombria da viola caipira. Em vez de suavizar essa diferença, Fidalgo a potencializa.

O resultado é uma releitura que desloca a escuta. As nove faixas do projeto mantêm a essência das composições originais, mas ganham novas camadas emocionais, como se o mar de Caymmi fosse atravessado por correntes mais profundas, vindas de outro território simbólico.


Capa da Obra de bra de Lula Fidalgo
Capa do projeto “Rio Abaixo, Mar Adentro” de Lula Fidalgo | Foto: Divulgação/Emilia Santos

Quando som e imagem contam a mesma história

Esse deslocamento não acontece apenas na música. O projeto também incorpora uma dimensão visual que amplia a experiência do público. Cada faixa é acompanhada por uma pintura original da artista Emília Santos, criada a partir da escuta das composições.

As obras são apresentadas em vídeos no formato time-lapse, sincronizados com as músicas. À medida que a viola conduz a narrativa sonora, as imagens se constroem gradualmente, criando uma leitura paralela da obra.

A proposta reforça o caráter interpretativo do projeto. Sem letras, a música instrumental abre espaço para que som e imagem dialoguem diretamente com a imaginação do público. Em algumas faixas, esse diálogo se aproxima de paisagens mais reconhecíveis; em outras, assume contornos mais simbólicos e até surrealistas.

A escolha também estabelece uma conexão direta com Dorival Caymmi, que além de compositor, atuava como artista visual e foi responsável pela capa original de “Canções Praieiras”. Ao retomar essa relação entre música e imagem, o projeto amplia o alcance da releitura.

Após o concerto, o público poderá participar de um bate-papo com Lula Fidalgo e Emília Santos sobre o processo criativo. O evento, com entrada gratuita, contará ainda com acessibilidade em Libras.

Ao transformar o contraste em linguagem, entre o grave e o leve, o interior e o litoral, Lula Fidalgo propõe uma nova escuta para a obra de Dorival Caymmi, e amplia as possibilidades da música brasileira contemporânea.

By Redação Maraq

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