Minions em volta de um que está com a câmera na mão com seu macacão azulMinions & Monstros | reprodução/Universal Pictures

No cenário atual do cinema de animação, poucas marcas conseguiram um impacto cultural tão imediato e avassalador quanto as criaturinhas amarelas tagarelas. Minions & Monstros, que estreou nacionalmente no último dia 1º de julho, traz uma proposta leve e descompromissada. O terceiro longa-metragem da série de pré-sequências de Minions, produzido pela Illumination, é focado na antiga Hollywood, enquanto as criaturinhas buscam um mega monstro para protagonizar um longa-metragem. A produção cumpre muito bem o seu papel principal: entreter e arrancar risadas. Embora a narrativa opte por seguir um caminho mais seguro, sem buscar grandes inovações ou viradas dramáticas surpreendentes, o filme ganha o espectador pelo carisma inabalável dos protagonistas e pela curiosidade do público. Afinal, a produção se dedica a revelar o início de tudo, explicando desde os primeiros passos do grupo nessa jornada na Terra até detalhes divertidos que atiçam a nostalgia dos fãs, como a escolha do icônico uniforme jeans que as criaturinhas usam.

A busca incansável dos protagonistas por um líder malvado para servir de forma fiel serve de motor para uma sequência de situações cômicas e altamente visuais. Essa jornada errante dita o ritmo ágil e fluido da produção, que funciona perfeitamente para o seu público-alvo, misturando piadas físicas com uma linguagem universal que ultrapassa barreiras de idade.


Minion de um olho só com uma maquina de finmagem nas mãos em Minions & Monstros

“Minions & Monstros” de 2026 | Foto: reprodução/Instagram/@minions


Nostalgia e referências clássicas

O grande acerto da ambientação e do design de produção está no uso inteligente e refinado de homenagens a ícones clássicos da cultura pop e da história do cinema mundial. A inserção de figuras emblemáticas, como Orson Welles, uma estátua de Kirk Douglas estrelando o clássico 20.000 Léguas Submarinas, o “mestre do suspense” Alfred Hitchcock e o gênio do cinema mudo Charles Chaplin, eleva o nível do humor do longa. Essas referências não funcionam como meros adereços visuais ou piadas soltas para fazer o público adulto sorrir; elas se amarram de forma muito natural e orgânica à história do próprio filme. O enredo utiliza essa atmosfera nostálgica e cult para pavimentar a trajetória do personagem James, mostrando os desafios, os bastidores e os caminhos que ele percorre para conseguir gravar o seu tão sonhado primeiro longa-metragem.


Foto de rodas de máquinas e mínions passando por ela em Minions & Monstros

Minions em referência ao filme “Tempos Modernos” de 1936 | Foto: reprodução/Universal Pictures


Os monstros e o resgate da memória afetiva

Um dos pontos mais ricos da narrativa é o desenvolvimento e a introdução das criaturas e vilões que cruzam o caminho dos protagonistas. Para quem assiste prestando atenção nos detalhes visuais, o longa entrega um verdadeiro banquete de referências, apresentando seres originais e divertidos concebidos pela equipe de animação do estúdio. Entre as novidades apresentadas, destaca-se o personagem Goomi, criatura claramente inspirada na entidade cósmica do escritor H.P. Lovecraft, porém apresentado de uma forma mais “bonitinha” para não assustar as crianças no cinema.


Aparição do antagonista Goomi em Minions & Monstros

Aparição do antagonista Goomi | Foto: reprodução/Universal Pictures


O longa também se diverte ao abrir o baú de monstros clássicos da história do cinema. Em uma das sequências de trapalhadas, vemos uma clara homenagem a A Múmia (1932), o lendário monstro da era de ouro do terror da Universal Pictures. Ao explorarem o que o cinema clássico tem de mais tradicional, os Minions reinventam essa atmosfera de mistério com o seu habitual tom cômico e desastrado.


Foto de uma múmia a esquerda com os braços levantados e ao lado direito, 6 minions felizes. Cena de Minions & Monstros

Cena em que “A Múmia” aparece em referência ao filme de 1932 | Foto: reprodução/Universal Pictures


Outra presença marcante que se destaca no enredo é a temida Irene. A criatura gigante amarela e repleta de olhos, evocada ao longo da trama, vai muito além de gerar teorias divertidas sobre a própria linhagem e biologia dos Minions. Ela funciona como uma grande e inteligente piscadela dos realizadores para o clássico A Bolha Assassina (1958), homenageando aquela icônica massa disforme do cinema de ficção científica dos anos 50 que consumia tudo o que encontrava em seu caminho. Esse cuidado em desenvolver os monstros sob a ótica do cinema de gênero mostra que a animação sabe brincar com o passado de forma muito inteligente.


Foto de dois monstros em primeiro plado de costas, olhando uma criatura gigante da cor alaranjada com vários olhos, em referência ao filme A Grande Bolha em Minions & Monstros

Monstro Irene em referência ao clássico “A Bolha Assassina” de 1958 | Foto: reprodução/Universal Pictures


Representatividade e inclusão

Outro ponto alto, extremamente feliz e que merece grande destaque na produção é o cuidado com a inclusão. O filme acerta em cheio ao permanecer com Ed, o Minion com deficiência, em uma posição crucial na trama. Essa representatividade ganha uma força real e exemplar, pois o personagem não foi colocado em cena apenas para cumprir uma cota social ou servir como um mero detalhe de cenário ao fundo. Ele é uma peça ativa do enredo. A importância do personagem é vista no desenrolar dos acontecimentos, onde suas características se tornam fundamentais: ele assume o papel de grande salvador da gravação de tudo o que aconteceu, provando que a capacidade e o heroísmo independem de qualquer limitação física.


Minions e o cineasta fictício Max, em Minions & Monstros

Minions e o cineasta fictício Max, que homenageia diretores imigrantes da Era de Ouro de Hollywood, como Lang, Lubitsch e Curtiz | Foto: reprodução/Universal Pictures


Mais do que apenas uma sucessão de gags visuais (as famosas piadas físicas), essa caminhada rumo ao sucesso carrega uma mensagem sutil e muito bonita sobre resiliência e convivência. O enredo funciona como um lembrete caloroso de que, na caminhada real da vida, muitas vezes cruzaremos com pessoas que, de início, não vão levar fé na nossa capacidade, no nosso potencial ou nos nossos sonhos mais ousados. No entanto, o roteiro mostra de forma madura que, ao persistirmos, essas mesmas pessoas acabam sendo transformadas pela nossa jornada e, lá na frente, terminam nos ajudando a alcançar os nossos objetivos.


Trailler dublado de Minions & Monstros | Vídeo: reprodução/Youtube/Universal Pictures Brasil


Com um roteiro redondo, piadas que respeitam o tempo da comédia e uma trilha sonora que dita o tom da diversão, o filme entrega uma experiência cinematográfica muito agradável. Ele consegue equilibrar o riso frouxo das crianças com a nostalgia refinada que os adultos apreciam ao identificar os ganchos históricos. E para os fãs mais atentos e apaixonados pela franquia, vale um conselho fundamental: não saia correndo da sala de projeção assim que a história principal terminar. Guarde um pouco mais de atenção para o encerramento definitivo da fita, pois a cena pós-créditos guarda uma surpresa muito aguardada, que amarra perfeitamente o universo expandido dessa animação com as origens que todos já amamos.

By Raquel Cunha

Jornalista por amor e formação, Raquel Cunha comanda o Portal Maraq unindo sua paixão pela cultura à expertise em gestão. Aborda o entretenimento e o cenário artístico de forma leve, transformando a notícia em uma conexão direta entre o público e a arte.