A Disney e a Pixar apostam mais uma vez na força de uma das franquias mais bem-sucedidas da história do cinema para discutir um tema cada vez mais presente na vida das famílias: a influência da tecnologia sobre a infância. Em Toy Story 5, que chega aos cinemas brasileiros em 17 de junho, os brinquedos clássicos enfrentam um novo desafio: disputar espaço com dispositivos digitais que dominam a atenção das crianças.
Sob a direção de Andrew Stanton, o longa abandona a necessidade de reinventar completamente sua fórmula para concentrar esforços em uma discussão contemporânea. A trama utiliza o universo já conhecido pelo público para refletir sobre o impacto das telas nas relações sociais, na imaginação infantil e na forma como crianças constroem vínculos afetivos.
O dilema da infância hiperconectada
O grande acerto do roteiro está justamente em evitar respostas simplistas. Em vez de demonizar a tecnologia, o filme apresenta os benefícios e os riscos de um mundo cada vez mais conectado, mostrando como ferramentas digitais podem aproximar pessoas, mas também criar relações superficiais e uma falsa sensação de pertencimento.
Essa discussão dialoga diretamente com alertas feitos por especialistas nos últimos anos. Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, ainda em 2023, o pediatra Daniel Becker chamou atenção para os impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento de crianças e adolescentes, destacando possíveis prejuízos nas habilidades de relacionamento, convivência social e autoconhecimento. A nova animação da Pixar transforma esse debate em linguagem acessível para toda a família, sem abrir mão do entretenimento.

Buzz Lightyear e Woody em Toy Story 5 | Foto: reprodução/Disney/Pixar
Passado e presente em perfeita sintonia
Mesmo com o foco voltado para a nova geração, os personagens clássicos continuam exercendo papel importante na narrativa. Woody, Buzz Lightyear, Jessie e os demais brinquedos funcionam como pontes entre passado e presente, reforçando a mensagem central do filme sobre a importância da imaginação, da convivência e das experiências compartilhadas fora do ambiente virtual.
Visualmente, a produção mantém o alto padrão técnico que consagrou a Pixar ao longo das últimas décadas. A animação apresenta cenários detalhados, movimentos fluidos e uma direção que sabe equilibrar momentos de humor, aventura e reflexão. O resultado é um filme capaz de dialogar simultaneamente com crianças que estão descobrindo a franquia e com adultos que acompanham a saga desde os anos 1990.

Smarty Pants e Jessie em Toy Story 5 | Foto: reprodução/Disney/Pixar
O maior mérito de Toy Story 5 não está apenas em revisitar personagens queridos pelo público, mas em usar essa familiaridade para provocar uma conversa necessária sobre os desafios da infância contemporânea. Em uma época marcada pela hiperconectividade, a animação lembra que nenhuma tecnologia é capaz de substituir completamente a criatividade, a amizade verdadeira e as experiências vividas no mundo real.
Um espelho dos novos tempos
Sem recorrer a discursos moralistas ou saudosismos exagerados, o longa encontra equilíbrio entre entretenimento e reflexão, entregando uma história que respeita o legado da franquia enquanto procura dialogar com as preocupações de uma nova geração. Mais do que uma continuação, Toy Story 5 surge como um convite para pais e filhos repensarem a forma como se conectam dentro e fora das telas.
Assim como os capítulos anteriores da franquia refletiram questões importantes de suas respectivas épocas, Toy Story 5 encontra relevância ao abordar um dos debates mais presentes na educação e na criação das crianças atualmente: a influência das telas nas relações humanas. Em vez de competir com os filmes anteriores, a nova produção encontra sua própria identidade ao atualizar a conversa para os desafios da geração digital.
Apesar da temática contemporânea, o longa preserva a capacidade de emocionar que transformou Toy Story em um fenômeno cultural. Entre momentos de humor, aventura e reflexão, a produção constrói uma narrativa envolvente que desperta no público a mesma sensação de encantamento responsável por manter a franquia relevante há mais de três décadas. Ao final da sessão, fica a impressão de que a história ainda tem algo a dizer, e a vontade de embarcar novamente nessa jornada.

