na image, uma menina loira olha para frente. cena do filme coração PartidoCena do filme Coração Partido | Divulgação/Paris Filmes

À primeira vista, Coração Partido parece seguir um caminho conhecido do romance adolescente: uma garota chega a uma nova escola, encontra dificuldades para se adaptar e acaba se aproximando do garoto mais temido do lugar. Mas, à medida que a narrativa avança, o significado do título revela uma dimensão que ultrapassa a relação amorosa.

O Portal Maraq teve acesso antecipado ao longa de Michael Vaynberg para análise que você pode conferir a seguir. O filme russo, baseado no Best-seller da escritora e autora Anne Jane, chegará aos cinemas brasileiros no próximo dia 20 de agosto de 2026.

Sinópse

Baseado no romance best-seller de Anna Jane, “Coração Partido” acompanha Polina, uma adolescente que tenta recomeçar a vida em uma nova cidade, mas logo se torna alvo de bullying na escola. Tudo muda quando Bars, o aluno mais temido e misterioso do colégio, oferece proteção em troca de que ela siga suas próprias regras.

O que começa como uma amizade de conveniência evolui para uma relação intensa e emocionalmente complexa, marcada por dependência, vulnerabilidade e uma crescente necessidade de pertencimento. Distante das fórmulas tradicionais do romance adolescente, o filme explora os limites entre afeto, controle e obsessão.


Vídeo: reprodução/Youtube/Paris Filmes


Intensidade sem construção enfraquece a narrativa

Coração Partido parece apostar em uma intensidade emocional muito próxima da experiência adolescente: amizades que surgem e desaparecem, conflitos que não são verbalizados, sentimentos interpretados a partir de sinais e situações que parecem maiores do que deveriam. O problema é que, em diversos momentos, o roteiro apresenta essas emoções sem oferecer ao espectador uma construção suficiente para compreender de onde elas vieram.

Essa falta de comunicação aparece especialmente nas relações entre os personagens. Em determinados momentos, a reação natural do espectador é perguntar: por que ela simplesmente não pergunta o que está acontecendo? Em vez de estabelecer um diálogo que poderia esclarecer a situação, os personagens preferem especular, interpretar comportamentos e tirar conclusões. A escolha pode até reproduzir uma característica comum da adolescência, mas, quando utilizada repetidamente como recurso narrativo, acaba criando uma sensação de artificialidade.


Polina e Bars em cena do filme Coração Partido | Foto: Divulgação/Paris Filmes


O mesmo acontece com algumas relações dentro da escola. O comportamento de Bars é frequentemente intimidador e, em determinados momentos, grosseiro não apenas com Polina, mas também com outras garotas. Ao mesmo tempo, uma das meninas mais populares da escola demonstra uma forte hostilidade em relação à protagonista, mas o roteiro não constrói suficientemente as razões dessa rejeição. O espectador percebe a intensidade do conflito, mas nem sempre recebe elementos proporcionais para compreender sua origem.



A participação dos adultos também sofre com esse problema. Eles aparecem na narrativa, mas muitas vezes não parecem exercer uma função dramática relevante. Quando finalmente assumem alguma importância para o desenvolvimento da história, suas intervenções chegam acompanhadas de uma carga emocional muito elevada, sem que a narrativa tenha preparado adequadamente o terreno para aquele momento.

O resultado é uma sucessão de situações que parecem pedir ao espectador uma resposta emocional maior do que aquela que a própria história conseguiu construir. O filme parece querer reproduzir a intensidade e a impulsividade da adolescência, mas, ao fazer isso sem estabelecer algumas relações e conflitos de maneira gradual, acaba confundindo intensidade com profundidade.

Referências musicais ajudam a construir a protagonista

Entre os elementos que ajudam a construir a identidade da protagonista está sua admiração pelo BTS. A referência à boyband sul-coreana aparece como parte do universo de Polina e ajuda a situar a personagem dentro de referências reconhecíveis por parte do público jovem.

É um detalhe pequeno dentro da história, mas que contribui para que a protagonista não seja definida apenas por seus conflitos ou pelo relacionamento com Bars. Antes de se tornar parte de um romance, Polina é uma adolescente tentando se adaptar a uma nova cidade, lidar com a mãe e seu padrasto, enfrentar dificuldades na escola e encontrar um espaço entre pessoas que ainda não conhece.

Fotografia e colorimetria

A colorimetria de Coração Partido também merece atenção porque estabelece uma atmosfera que nem sempre acompanha a intensidade das situações apresentadas. O filme trabalha visualmente com uma estética mais suave, que não parece preparar o espectador para algumas das reações e conflitos mais carregados que surgem ao longo da narrativa.

Essa escolha cria um contraste interessante, mas nem sempre funciona a favor do filme. Quando uma situação emocionalmente intensa aparece sem uma construção dramática anterior, a imagem também não oferece necessariamente elementos suficientes para preparar o espectador para aquela mudança de tom. O resultado pode ser uma sensação de descompasso entre aquilo que a narrativa quer provocar e aquilo que a linguagem visual vinha construindo.

Nesse sentido, a questão não está necessariamente em uma colorimetria “errada”, mas em como fotografia e narrativa poderiam trabalhar juntas para construir a mesma intensidade. Se o roteiro acelera determinadas emoções, a linguagem visual poderia ajudar a estabelecer gradualmente essa mudança de estado.

Um coração partido antes mesmo do romance

A principal força de Coração Partido está na possibilidade de olhar além da história de amor. O romance entre Polina e Bars conduz a narrativa, mas o filme também apresenta personagens atravessados por questões familiares, dificuldades de comunicação e pela tentativa de encontrar seu espaço em meio às mudanças da adolescência.

Polina chega à nova realidade carregando sentimentos relacionados à família e ao afastamento da avó, enquanto Bars também traz experiências que ajudam a compreender algumas de suas atitudes. Essa camada dá ao romance uma dimensão que vai além da relação entre os dois protagonistas.

Nesse sentido, Coração Partido trabalha com elementos conhecidos do romance juvenil, mas encontra seu diferencial quando permite perceber que o título pode ter um significado mais amplo do que uma simples desilusão amorosa.


foto de uma menina loira de olhos azuis com um telefone na mão. Imagem do filme Coração Partido

Foto: Divulgação/Paris Filmes


O coração já estava partido antes do romance começar.

Ainda assim, a produção não alcança, para esta crítica, a força necessária para se tornar uma experiência cinematográfica que justifique a ida ao cinema. O filme funciona melhor como um entretenimento leve e descompromissado, especialmente para quem aprecia romances adolescentes e histórias sobre relacionamentos e conflitos familiares.

É uma produção que eu escolheria para assistir em um final de tarde de sábado, sem grandes expectativas, mas não seria um filme pelo qual eu pagaria o ingresso para ver no cinema.

Nota: 2/5

By Maraq Entretenimento

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