Homem de idade sentado em avião ao lado da janela olhando para frenteTom Crise como Digger | Reprodução/Youtube/Warner Bros. Pictures Brasil

O que parece, inicialmente, ser mais um filme de ação sobre uma catástrofe climática logo revela uma proposta diferente. Em Digger, Alejandro Iñárritu mistura sátira, drama e metalinguagem para discutir a forma como a sociedade lida com o próprio colapso. A produção encontra sua maior força na atuação de Tom Cruise e na construção visual, mas perde ritmo ao tentar abordar muitos temas ao mesmo tempo.

O verdadeiro conflito de Digger

No início, Digger parece apresentar mais uma história em que Tom Cruise precisa salvar o planeta de uma gigantesca geleira. Essa primeira impressão, porém, é uma das armadilhas do filme. O verdadeiro conflito está na ginástica mental das elites para tentar se absolver e na maneira como a sociedade transforma uma tragédia em meme, espetáculo e entretenimento.

Tom Cruise aparece inicialmente como um bilionário do petróleo detestável, responsável pelo desastre. Depois, a história revela que aquilo é uma espécie de ensaio para uma peça satírica. Na realidade do filme, o mundo já acabou. Os sobreviventes pagam para rir da própria tragédia em vez de tentar resolvê-la. É nesse ponto que o filme amplia o alvo. O ator quebra a quarta parede e também responsabiliza o público. Afinal, segundo a lógica apresentada, a sociedade também queria conforto, carros, tecnologia e tudo aquilo que contribuiu para o modelo que levou ao desastre.

A imagem final resume essa ideia: a plateia aplaude de pé, deixa o teatro, coloca máscaras de gás e caminha pela água poluída de Manhattan. O verdadeiro conflito de Digger está justamente nisso: consumir o caos como entretenimento enquanto o mundo ao redor está desmoronando.


Trailer dublado | Vídeo: reprodução/Youtube/Warner Bros Pictures Brasil

A jornada do protagonista

A trajetória do protagonista acompanha um homem que tenta humanizar um monstro no palco e, aos poucos, percebe que o público está aplaudindo justamente uma paródia do apocalipse em vez de encarar a realidade em que está vivendo.

Essa jornada é menos sobre salvar o mundo e mais sobre compreender a própria posição dentro daquela narrativa.

Ritmo propositalmente irregular

O ritmo de Digger é propositalmente bagunçado. Iñárritu parece querer provocar desconforto, e isso funciona principalmente no começo. A abertura é muito forte. A mudança de um filme de ação aparentemente tradicional para um ensaio teatral surpreende, especialmente pelo movimento de câmera longo, que remete a Birdman.

O problema aparece no meio. O filme tenta trabalhar comédia, debate sobre o fim do planeta, drama entre pai e filha e discurso anticapitalista. Essa quantidade de ideias começa a ficar cansativa e repetitiva. O final também não é exatamente fluido. Funciona melhor para quem está disposto a experimentar, mas pode testar a paciência de quem espera uma história mais fechada e bem amarrada.

A relação entre os personagens funciona justamente pelo atrito e pelo desconforto. Em alguns momentos, eles parecem nem estar falando a mesma língua, e isso acaba funcionando a favor do filme. É interessante acompanhar grandes atores se confrontando e tentando tirar um ao outro da zona de conforto.

Tom Cruise foge do herói tradicional

Tom Cruise é um dos grandes destaques do filme justamente porque foge completamente da imagem do herói perfeito. Ele aceita parecer ridículo, feio e descontrolado. É uma escolha muito diferente da imagem que normalmente associamos ao ator. Essa desconstrução é uma das melhores coisas de Digger. Cruise se entrega ao absurdo do personagem e, em vários momentos, é ele quem segura o filme.

Para quem gosta do ator e quer vê-lo fazendo algo diferente, é uma atuação que vale o ingresso.


Tom Cruise caracterizado para o filme Digger. Na foto, o rosto do ator está assustada e em evidência
Tom Cruise em Digger | reprodução/Youtube/Warner Bros Pictures Brasil

Som e trilha sonora ajudam a criar tensão

O som de Digger não está ali para proporcionar conforto. Pelo contrário: ele ajuda a criar uma sensação constante de nervosismo e claustrofobia. Três frentes funcionam juntas: uma trilha invasiva e cacofônica, um desenho de som metalinguístico e o uso do silêncio como uma espécie de golpe. Tudo isso contribui para a sensação de urgência que o filme tenta construir.

Fotografia acompanha o estado emocional dos personagens

A fotografia praticamente funciona como um personagem. A câmera sufoca em vários momentos, principalmente com o uso de câmera na mão e planos longos. As cores também ajudam a separar os mundos apresentados pelo filme.

O palco aparece com cores saturadas e exageradas, enquanto o mundo real é mais frio, cinza, escuro e molhado.

No final, o primeiro plano cru e próximo do rosto dos personagens, mostrando suor, lágrimas e maquiagem borrada, reforça essa sensação de desgaste. A imagem transmite o peso e a vertigem daquela situação.

Iñárritu cria tensão, mas não é sutil

Iñárritu domina a construção da tensão. O problema está justamente na falta de sutileza. O diretor não parece ter medo de gritos, choro exagerado e desespero explícito. Isso pode funcionar para alguns espectadores e afastar outros. A história do pai que sofre pela filha desaparecida, por exemplo, é genuína. Mas é preciso aceitar essa abordagem extremamente crua para que ela funcione.

De qualquer forma, a direção garante que o espectador não fique indiferente ao que está acontecendo.


O ator Tom Cruise e o diretor Alejandro González Iñárritu em divulgação do filme no Japão | Foto: reprodução/Instagram/@diggerthemovie


O teatro como metáfora para a sociedade

Um dos pontos mais interessantes é a utilização do teatro como uma espécie de anestesia social. Os espectadores pagam para assistir à própria tragédia e rir dela. Conseguem consumir o desastre de forma passiva, sem precisar encarar a realidade. Também existe nessa relação uma discussão sobre controle. O protagonista tenta controlar a narrativa e a própria imagem enquanto tudo ao redor está desmoronando.

Ao mesmo tempo, o filme fala sobre solidão e desconexão. Existe uma aparente harmonia social, mas as pessoas estão cada vez mais distantes de uma conexão humana verdadeira.

Um final que não entrega respostas fáceis

O final não tenta resolver tudo. O drama pessoal chega ao ponto de ruptura em um monólogo brutal, no qual o ator abandona a persona do magnata e passa a responsabilizar também a plateia. O público aplaude. Depois, sai do teatro, coloca máscaras de gás e caminha pela água poluída de Manhattan.

Os créditos chegam sem explicar se a filha foi encontrada ou se a humanidade foi salva. A escolha é importante porque devolve a pergunta ao espectador: será que nós também somos aquela plateia alienada que acabou de aplaudir o próprio fim?

Para quem Digger é indicado?

Digger não é um filme para todo mundo. Quem entrar esperando um blockbuster de ação tradicional pode se decepcionar.

A produção é indicada principalmente para quem gosta de um cinema mais cerebral e provocativo, com metalinguagem e disposição para experimentar. Quem aprecia filmes como Birdman, Caché e Não Olhe para Cima provavelmente encontrará elementos interessantes aqui. Também pode funcionar para quem gosta de Tom Cruise em uma versão mais crua e dramática, especialmente para quem aprecia trabalhos como Magnólia e De Olhos Bem Fechados.

É um filme mais interessante para quem prefere sair do cinema pensando sobre o que acabou de assistir do que receber um final previsível e confortável.


Bastidores do filme Digger | Foto: reprodução/Instagram/@diggerthemovie


A força e a maior fraqueza de Digger

A maior força do filme está justamente na sua ousadia. A desconstrução de Tom Cruise, o trabalho visual e a capacidade de criar tensão são pontos muito fortes.

Por outro lado, o filme pesa a mão no discurso. Tenta falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo e, no meio, acaba ficando barulhento e cansativo e em alguns momentos, fica a sensação de que Iñárritu não confia no público e precisa explicar demais aquilo que está tentando dizer. A sátira acaba se aproximando de um sermão.

Nota: 3,5 de 5

Digger é um cabo de guerra entre genialidade e exagero. A produção merece pontos pela parte técnica, pela coragem e pela atuação de Tom Cruise. Também se destaca por ter personalidade e provocar reflexão. O meio, porém, se arrasta por causa do excesso de discurso e da quantidade de temas que tenta abraçar. Ainda assim, é preferível um filme imperfeito que se arrisca a um blockbuster covarde que simplesmente repete uma fórmula.

By Maraq Entretenimento

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