Wile E. Coyote sentado em um trono feito de produtos e explosivos defeituosos da corporação AcmeWile E. Coyote pronto para levar a corporação Acme aos tribunais no filme "Coyote vs. Acme" | Divulgação / Warner Bros.

Depois de décadas tentando capturar o Papa-Léguas e acumulando acidentes provocados pelos produtos que comprava, Wile E. Coyote decide mudar de estratégia. Em vez de adquirir mais um equipamento da ACME, ele resolve processar a empresa pelos danos físicos e morais causados por seus produtos defeituosos.

Em Coyote vs. Acme, o personagem conhecido por perseguir o Papa-Léguas assume uma posição diferente daquela que o público conhece. O Coiote deixa de ser visto apenas como o eterno antagonista azarado e passa a enfrentar uma grande corporação que, segundo a proposta da história, lucra enquanto transfere para o consumidor a responsabilidade pelos problemas causados por seus produtos.


Banner oficial | Foto: reprodução/Warner Bros


Enredo e roteiro

A grande mudança de Coyote vs. Acme está na forma como o filme reposiciona seu protagonista. Em vez de acompanhar mais uma tentativa frustrada de capturar o Papa-Léguas, a história coloca Wile E. Coyote em uma batalha judicial contra a empresa responsável pelos equipamentos que tantas vezes contribuíram para seus acidentes.

O personagem continua sendo reconhecível. Ele ainda é impulsivo, toma decisões questionáveis e insiste em estratégias que nem sempre fazem sentido. A diferença é que, desta vez, seus fracassos também são analisados a partir da responsabilidade da ACME.

O roteiro transforma o eterno vilão das perseguições em um personagem que busca reparação. Ao lado de um advogado desacreditado, o Coiote tenta enfrentar uma estrutura muito maior do que ele e exigir que a empresa responda pelos danos causados.

A principal força do roteiro, segundo esta crítica, está no respeito à obra original. A história entende o espírito das animações clássicas e encontra uma forma de levar esse universo para uma narrativa diferente, sem abandonar completamente a essência do personagem.

Direção e ritmo

Dave Green encontra um bom equilíbrio entre a dinâmica de uma disputa judicial e o ritmo acelerado do humor slapstick dos Looney Tunes.

Essa combinação poderia facilmente criar dois filmes diferentes dentro da mesma história, mas a direção consegue fazer com que os elementos conversem entre si. As cenas relacionadas ao tribunal dão estrutura à narrativa, enquanto o humor físico mantém a energia associada ao universo do Coiote.

O ritmo funciona especialmente porque o filme não tenta transformar os Looney Tunes em algo excessivamente sério. Mesmo diante de uma disputa jurídica, ainda existe espaço para acidentes, exageros e situações absurdas.

Dave Green também consegue criar momentos de tensão quando necessário, sem abandonar o tom de comédia. A direção encontra espaço para trabalhar a emoção do personagem, especialmente por meio de suas expressões e reações.

Atuações e personagens

Will Forte, como o advogado Kevin Avery, é um dos grandes destaques do filme. O ator utiliza bem o humor físico e sua capacidade de interpretar personagens que transitam entre o fracasso e a tentativa de recuperação. Essas características ajudam a construir uma relação convincente com o Coiote.

A química entre os dois funciona. Mesmo contracenando com um personagem animado, Forte consegue estabelecer uma dinâmica que faz a parceria parecer natural dentro daquele universo.

O Coiote também consegue despertar empatia. Mesmo quando toma decisões absurdas, o público entende que existe uma razão para sua revolta. Depois de tantos acidentes e equipamentos que falharam repetidamente, sua decisão de enfrentar a ACME passa a fazer sentido dentro da lógica proposta pelo filme.

Já o antagonista interpretado por John Cena é divertido e expressivo, mas representa a principal fragilidade apontada nesta crítica. Em alguns momentos, o personagem recorre a características previsíveis de um antagonista, o que enfraquece parte da força da disputa jurídica.

Confira o trailer a seguir:


Trailer Oficial | Vídeo: reprodução/Youtube/Paris Filmes


Design de som e trilha sonora

O som é um dos elementos mais importantes para o funcionamento da comédia. Coyote vs. Acme recupera efeitos sonoros associados ao universo clássico dos Looney Tunes, incluindo explosões, impactos e sons característicos das quedas e acidentes.

Ao mesmo tempo, esses elementos são colocados ao lado de uma trilha mais grandiosa, especialmente nas situações ligadas à disputa judicial. O contraste entre a seriedade de uma batalha nos tribunais e os efeitos exagerados dos desenhos ajuda a construir parte do humor. O resultado preserva uma característica fundamental das animações: muitas vezes, o som é tão importante para a piada quanto aquilo que aparece na tela.

Fotografia e estética visual

A fotografia trabalha com diferenças visuais entre os ambientes apresentados na história. Os espaços ligados ao universo do Coiote utilizam referências aos cenários desérticos associados às animações clássicas. Já os ambientes relacionados à ACME aparecem com uma atmosfera mais fria e corporativa.

A diferença ajuda a separar visualmente dois mundos: o espaço caótico e exagerado do personagem e o ambiente burocrático e impessoal da empresa. Essa escolha também reforça a posição do Coiote diante da corporação. Ele está acostumado a um universo onde tudo pode explodir ou cair do céu, mas precisa enfrentar uma estrutura organizada, poderosa e muito maior do que ele.

Temática e crítica social

Por trás da comédia, Coyote vs. Acme apresenta uma leitura crítica sobre grandes corporações e a relação entre empresas e consumidores.

A ACME funciona como uma representação de uma empresa que vende produtos, lucra com eles e, quando algo dá errado, tenta transferir a responsabilidade para quem os utilizou.

Na visão desta crítica, o filme utiliza o humor para discutir temas como responsabilidade empresarial, poder econômico e a dificuldade enfrentada por indivíduos que tentam buscar reparação diante de grandes estruturas.

Existe também uma leitura mais ampla sobre o capitalismo contemporâneo e a forma como o indivíduo pode se sentir pequeno diante de empresas capazes de controlar recursos e narrativas.

A crítica aparece dentro de uma história absurda, o que ajuda a manter o tom dos Looney Tunes sem transformar o filme em uma produção excessivamente pesada.


Vídeo: reprodução/Instagram/@coyoteacmemovie


Pontos fortes e fracos

A maior força de Coyote vs. Acme é o respeito pela obra original. O roteiro demonstra compreender os personagens e o tipo de humor que tornou o Coiote e o Papa-Léguas parte da cultura popular. Ao mesmo tempo, encontra uma nova situação para colocar o protagonista sem simplesmente repetir as perseguições tradicionais.

A principal fragilidade está na construção do antagonista interpretado por John Cena. Embora o ator entregue energia e bons momentos, algumas escolhas relacionadas ao personagem se aproximam de clichês que poderiam ter sido evitados. Ainda assim, esse problema não compromete o conjunto.

O filme consegue funcionar como comédia familiar, homenagem às animações clássicas e sátira corporativa.

Público

Coyote vs. Acme é um filme capaz de conversar com diferentes gerações. Para quem cresceu assistindo aos Looney Tunes, a produção funciona como uma homenagem aos personagens e ao estilo das animações clássicas. O público encontrará referências ao humor físico, às situações absurdas e à estética associada ao universo do Coiote.

Para as crianças, o filme funciona como uma comédia familiar movimentada, com explosões, acidentes e humor visual que podem ser compreendidos mesmo sem conhecimento da disputa jurídica. Já o público adulto pode encontrar uma leitura diferente na crítica às grandes empresas e na estrutura de comédia jurídica.

Veredito

Coyote vs. Acme consegue transformar uma premissa aparentemente absurda em uma história divertida e surpreendentemente consistente.

A ideia de Wile E. Coyote processar a empresa responsável pelos produtos que tantas vezes contribuíram para seus fracassos poderia funcionar apenas como uma piada prolongada. O filme, porém, encontra espaço para desenvolver uma história com humor, emoção e crítica social.

A direção de Dave Green mantém a energia dos Looney Tunes, enquanto Will Forte se destaca pela parceria com o protagonista animado.

Para esta crítica, o filme representa uma das comédias híbridas mais divertidas e interessantes dos últimos anos. Acima de tudo, demonstra respeito pelo universo original e encontra uma forma criativa de dar ao eterno azarado uma nova história.

Nota: 4,8/5

Coyote vs. Acme é recomendado para fãs dos Looney Tunes, espectadores que cresceram acompanhando o Coiote e o Papa-Léguas e para quem procura uma comédia que mistura humor físico, aventura e sátira corporativa.

By Maraq Entretenimento

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